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Amor e Drama by Fabian Balbinot « Marypop gfdfgd

Foto5

AMOR E DRAMA

Um relato de carência e ingenuidade dirigido por Fabian Balbinot

“Um sexo é a metade do outro sexo. Ambos eles se procuram, porque unidos se completam.”

Marquês de Maricá

Olá, caríssima.

Sinto-me carente, fraco, impotente, e como tal, cheio de idéias. Idéias que dizem pouco pois não acho tempo para colocá-las todas juntas no papel. Idéias das quais me mudo, trocar de idéias. Idéias que se juntam e me torturam com chibata, subjugam-me.

Troco de idéia e violo nosso acordo. Mudo o que prometi, e te entrego o que não estava nos planos, o dobro do que foi prometido. Um ramalhete de flores. Falta-me idéia melhor, por isso, ofereço idéia em quantidade. Uma caixa de bombons. Digo mais e mais palavras, apenas porque me faltam as palavras certas, ideais. Sou rápido no gatilho, escrevo pro lado que estou olhando, mas, em geral, falta-me ímpeto para atirar. Gaguejo. É parte do meu nome.

Trocando de idéia, inspirado por filmes que me amolecem o peito e me deixam carente, fraco, impotente, escrevo a réplica que tu me pediste, não a que tu sonhaste. As idéias que tenho não prestam, não me obedecem, e fogem do meu controle. Não querem agradar ninguém. E se transformam em um presente-surpresa para ti. Bombons e um ramalhete de flores.

Minhas idéias que não prestam são sonhos, e dos sonhos surgem estórias. Narrativas de amor profundo, em que erotismo e carinho se confundem. Como sou nada além de reles escravo de minha vida e das vidas de muita gente nessa imprestável sociedade humana, bem o sabes… como não posso estar contigo no exato instante em que me desejas, para ser tão somente teu escravo, um dos três pedidos do gênio de tua lâmpada, podendo satisfazer de forma instantânea tua volúpia ou tua necessidade de afeto, lamber-te e sugar teus excessos até que desfaleças em gozo, ou apenas olhar para teus olhos e chorar junto enquanto choras… como sou apenas um imprestável contador de estórias sem êxito, ofereço-te elas, as estórias, como paliativo para teu desejo, band aid tapando o corte que transpira a vida futura entre tuas coxas.

Ofereço a ti, minha musa inquieta de muitos signos e muitos perfis, estórias que lembram filmes, e que deles advêm.

Oh, os filmes… Percebo, terna criatura, que gostas de filmes. Os sonhos de outrem eternizados na película. Escreves sobre eles pois que te fazem também sonhar.

Amo também eu o que o cinema tem a dizer. Rio das comédias. Deliro com as aventuras. Regozijo-me com o grand finale.

Comovem-me sobretudo os dramas mais duros, aqueles intransigentes com a segurança dos personagens, carentes de final feliz. Dramas prolíficos de amargura e dor, que me fazem lembrar de minha solidão, querer ter alguém ao meu lado, querer estar em alguém, buscando calor e consolo em um abraço que se confunde com penetração, com intromissão e convivência.

Assistindo a um destes filmes, imagino, pois que imaginar é o que me torna o que sou, essa coisa de idéias soltas que somem antes que eu tenha a chance de convertê-las em escrita, essa criatura que adora dicionários e pirataria de palavras, porque palavras não têm copyright.

Eis que segue uma pequena fatia do fruto deste meu derradeiro devaneio. Qualquer semelhança com a realidade é sinal que nem sempre a vida é uma mera coincidência…

Neste meu sonho, que não é o que tu me pediste nem o que tu sonhaste, estás aqui comigo em um lugar plácido que cheira a penumbra, imerso em escuridão. Um lugar seguro, morno, solene. Um assento grande e confortável, um aparelho que sirva para tocar filmes, outro que os exiba e um terceiro por onde possam sair seus sons. Uma porta com chave que nos isole da sordidez do mundo, pois sabemos que os dramas do mundo não nos comovem. Antes apavoram, extenuam, corrompem nossa fé, matam-nos. Sepultam o nosso amor.

Tudo isso e um frasco de água. O contato que faremos e que vai até o ponto de tocarmos nossas almas causará ebulição em nossos corpos, desidratando-nos, causando sede. Sabemos disso de antemão.

Como de hábito, de comum acordo, despimo-nos, devagar e em silêncio. A tela grande diante de nós exibe páginas iniciais, regras e acordos jurídicos e ásperos que ignoramos conforme nossas vestes deixam nossos corpos e, silenciosamente, fazemos os preparativos finais para tomarmos nosso assento e consumarmos mais uma vez a nossa união.

Não há espaço para nossa própria mágoa nesse momento único e inigualável em que buscamos prazer absoluto na mágoa de um filme. Não há espaço para o finito, o mundano. Não haverá chamadas de celular nem visitas ou imprevistos nesse nosso momento de carinho. Não haverá trânsito, pedidos, compromissos, agendas, stress ou dores de cabeça. Telefones e campainhas estão preventivamente desligados. Não temos de tomar conta de nada nem de ninguém, e nossa única responsabilidade é com o funcionamento do video, com a satisfação própria e de nossa cara-metade. Não temos de pensar no amanhã. Evitamos o possível fruto de nosso amor por intermédio de químicas e látex. Somos felizes assim, de comum acordo, até que decidamos o contrário. Ou que o destino decida por nós.

Tu te aproximas e tocas meu corpo com suavidade. Eu retribuo, esquecendo do mundo e sentindo tua maciez com minhas mãos. Sorrimos de leve, rostos semi-encobertos pela penumbra. Não trocamos palavra – há bastante tempo temos esse costume de nos amarmos mais intensamente, de fazermos mais felizes um ao outro usando a melancolia de um drama filmado como nossa guia. Tu apenas terminas de te despir e sentas em meu colo, encaixando-me devagar dentro de ti, e então o filme começa empurrado pelo apertar de uma sequência de botões no pequeno controle remoto, que é abandonado à própria sorte, garrafa sem mensagem a flutuar no oceano não importa para onde.

Letras surgem e desaparecem, ao sabor das primeiras imagens. Respiramos devagar, e nossa união respira junto, defeitos e individualidades esquecidos, substituídos pelos perfumes agradáveis, insinuantes, que propositadamente usamos. Sinto o calor das tuas coxas coladas às minhas de uma forma desconfortável. O filme apenas se inicia, letras e nomes espocando lá e cá, de modo que podemos nos ajeitar, buscar conforto, acoplarmos o corpo de um ao corpo do outro da mesma forma como fazemos sempre que nos encontramos para sentir o desejo e a paixão profunda que podem se originar a partir da magia da nona arte.

Em um dado instante, aquietamo-nos, perfeitos, deitados um no outro no sofá. Intentamos ouvir apenas o que o filme tem a dizer. Nossa respiração, nossa pulsação, um que outro fiasco de nossas entranhas sobressaindo e sendo ignorado, sempre que a película emudece.

Sabemos de antemão que o filme é um auge, êxito de crítica e de público, responsável pelo derramamento de bilhões de lágrimas pelo mundo todo. Isso nos tranquiliza – também nós queremos isso, alcançar o auge de nosso amor, de nossa entrega, da dependência que sentimos um pelo outro. Também nós queremos derramar bilhões de lágrimas, lavando um ao outro, compartilhando nossas emoções.

Fatos são mostrados, verdades surgem em um caos de imagens e se concatenam umas às outras na nossa frente. Sinto necessidade de te envolver para compensar o envolvimento que fazes em meu sexo, mastigando-o, sorvendo-o, dilacerando-o suavemente. Abraço com carinho o teu corpo, acaricio teus seios e teu ventre e teus quadris e tuas coxas e teu pescoço, e tu me respondes movendo tua cabeça devagar de encontro à minha e pegando minha mão. O calor nos consome e sentimos o vibrar intenso dos muitos pontos em que nossas peles se tocam. Desde a primeira vez em que experimentamos tal sucessão de escuridão, imagens, aromas, vozes e calor, mais afoitos, esse estremecer se repetiu, tirando nossos fôlegos, fazendo bater mais forte nossos corações, fazendo-nos ansiar pela próxima sessão. Dentro de ti, sinto-me como se estivesse prestes a ebulir, mas me contenho, pois nosso acordo sempre envolve uma sincronia de amor e sofrimento, felicidade mesclada à amargura do filme que se desenrola na tela.

A estória do filme começa a querer ser nossa história. A trama, que avança em meandros de intriga e suspense, ainda um gás solto no ar, invisível e incompreensível, vai se condensando, tornando-se algo líquido, fluido, escorrendo e gotejando em nosso entendimento, umedecendo nossa pele, fazendo-nos suar.

Um instante de emoção, personagens em conflito, incompreensão, agressividade, carência, dores reprimidas sendo expostas através de gritos histéricos no grande painel, dolby stereo surround cercando-nos e assaltando nossos ouvidos, calores e cheiros nos deixando tesos. Ouço um suspiro, um gemido, e noto que o filme começa a dominar tua atenção. Engulo em seco, respiro fundo e coloco minha mão trêmula sobre teu sexo, apertando-o de um modo inocente, como que para protegê-lo de todo o mal que o filme possa querer te causar. Tua mão vem repousar sobre a minha, apertando-a também, como que para agradecer a suposta preocupação que tenho com tua segurança. Teu rosto se vira para mim e trocamos um beijo afetuoso, lânguido, lambido. Misturamos nossas salivas e nosso hálito quente e doce da hortelã-menta-frescor de nossa higiene bucal, de nosso jejum. Sinto o pulsar de tua língua e de tua flor, debaixo de meus dedos, dentro da minha boca, em volta de mim, e sei que tu também me sentes, tanto em teus dedos quanto em todos os teus lábios.

Vibramos em uníssono, aquecemo-nos, mas nos movemos pouco. A experiência de outros tantos filmes, outras tantas sessões, outros tantos prazeres, imobilizando-nos, eu dentro de ti, em teu redor. Nossas bocas se abandonam com um breve e afetuoso olhar que pouco vê, iluminado pela escuridão, e voltamos logo ao filme. Não podemos perder o fio da meada, pois isso comprometeria o êxtase que nos aguarda, para o qual encontramo-nos definitivamente prontos, atrelados, amarrados um no outro.

Algo inesperado ocorre, uma cena forte que nos chama a atenção. Como em outras tantas vezes, tu estremeces, assustada diante da violência e da tensão, fragilizada, ofendida, impossivelmente receptiva e feminina. Encolhes teu corpo, unindo ventre e coxas e pernas e braços, escondendo o rosto por trás dos joelhos. Ouço mais suspiros, mais gemidos, e um levíssimo fungar que me enlouquece de amor. As lágrimas que começam a brotar em teus olhos pesam como se fossem bilhões de lágrimas. Pesas sobre mim. Pressionas-me com força, de todas as formas, com mãos e carne e pele macia e ossos duros, aromas e gemidos e correrias desabaladas dentro do filme, dentro e fora de ti, machucando-me. Defendo-me da dor, apertando teu corpo inteiro em um abraço, envolvendo-te de cima a baixo, enlaçando tuas pernas e braços e servindo como um manto para te escudar da malignidade das cenas que te põem tão frágil, agonizante.

Corajosa, talvez sentindo-se mais protegida pelo laço de meus braços, tu elevas os olhos, e te lanças de novo de encontro ao enredo. Colo meu rosto em tua cabeça, beijando teu cabelo, respirando em ti, e imito teu interesse, e ambos dispensamos toda a nossa atenção para o filme.

Nossos sexos relaxam e se mesclam como uma única carne, contaminados pelo efeito relaxante do cinema. Nossos corpos se contraem, a tensão e a vibração mudando de frequência, seguindo o ritmo da ação que se passa na tela. A estória nos fisga, o enredo domina nossos sentidos, o sentimento dos personagens se torna o nosso sentimento.

Há medo e expectativa nas imagens que vemos. Há medo, horror e ódio nas faces dos protagonistas. Há receio, traição, subserviência, e desânimo, e desespero perante a fatalidade. Há susto, agressão e injustiça sem punição. Há também esperança, há entrega, e amor puro e juras e planos de felicidade eterna. E saboreamos, eu e tu, todos esses sentimentos, juntos. Nossos corações palpitam como bombas de drenagem descontroladas. Descompassados, os nossos fôlegos agridem o ar. Nossos corpos enredados, a mesma carne, o mesmo sangue, enroscados um no outro, entrelaçados, aquecidos em banho-maria. O suspense crescente unindo até mesmo nossas almas em uma coisa só, feita de atenção, expectativa e possibilidade de reação.

Nunca estivemos tão juntos, tão completos, tão unidos e tão dependentes, tão imersos um no outro. Nunca, pois aprendemos a confiar um no outro nas diversas outras vezes em que fizemos este mesmo ritual. Somos unha e carne enquanto estamos um dentro do outro assistindo um drama comovente. Jamais trairemos a confiança um do ou outro. Desejamos absorver o que o filme tem a nos oferecer, e aproveitar essa substância de sentimento para nosso próprio usufruto.

Em um lapso de segundos, recordo-me de nossos insucessos. Assoma à minha mente a primeira vez em que tentamos realizar a experiência de misturar nossas químicas enquanto víamos um filme. Tema errado, ambiente errado, risadas e conversas desnecessárias, inexperiência, erros, explosões e compostos inúteis como resultado. A segunda e a terceira vez, com insucessos não menores. A quarta vez, quando decidimos que um drama que colocasse nossas emoções à flor da pele seria a base ideal para alcançarmos a fórmula que apenas tínhamos em mente. As regras, a dosagem de cada fator que passamos a impor um ao outro a partir da quinta vez. A mistura se tornando mais certeira a cada nova tentativa.

Sorrio, revendo as mudanças que fizemos, evoluindo a cada vez que combinávamos realizar essa nossa terapia: TV maior, home theater, sofá novo e mais comprido, campainha com dispositivo de desligamento, fora óculos de grau, entram lentes de contato… Suspiro, aperto meu rosto em tua cabeça, beijo tua nuca, comemorando o êxito desta nossa empreitada, e retorno ao filme.

Uma nova cena. Um desfecho. O imprevisto. A morte.

Choras de verdade agora, e eu faço pouca força para chorar contigo. A cena é forte, intensa, cheia de emoção e significado. Choramos juntos. Gememos e respiramos juntos, um parecendo responder aos apelos do outro. Eu dentro de ti, em teu redor.

O final da estória é inesperado, triste e belo. Uma singela sinfonia enche nosso coração, que é um só, de uma ternura que sobe até nossa garganta.

Nosso abraço se estreita.

Os créditos sobem. Suspiramos.

Nada dizemos. Sentimos amor pela emoção que o filme nos transmitiu. Amamos o filme, a delicadeza da trilha sonora final, a mistura de cheiros e sons, calor, suor e pele.

Amor e sede. Nossas bocas estão secas. Nossas gargantas estão secas e é impossível engolir. Sentimo-nos desidratados e enfraquecidos, como se tivéssemos percorrido um escaldante deserto feito de areia e emoção durante as quase duas horas em que percorremos o filme, atados, algemados, dependentes um do outro. Nossos corações, nossas almas parecem ter drenado o líquido de nossos corpos, como em outras tantas vezes.

Ah, como é bem vinda aquela garrafa de água mineral que aprendemos a deixar reservada perto do sofá, se não me engano apenas a partir da oitava sessão de nossa terapia de amor e cinema!

Tomo a água direto no bocal da garrafa, sentindo o frio da renovação da vida percorrer minhas entranhas. Respiro tão fundo que parece que vou me esvair, tornar-me nada.

Sorvo mais um gole de água, que deixo em minha boca, como aprendi a fazer na décima de nossas carinhosas sessões. Ou seria na décima primeira? Pouco importa… Procuro tua boca, e tu já sabes o que pretendo fazer. Colamos nossas bocas uma a outra e então transfiro a água que guardei para ti, sentindo também a tua renovação. O líquido vai descendo calmamente pela tua garganta, e o que sobra é o beijo, a mudança de posição no sofá grande, o amor que finalmente será feito em sexo, depois da série de preliminares regidas com maestria pelo drama comovente que chega ao fim na tela…

Fabian Balbinot

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Written on novembro 25th, 2009 & filed under Autoral
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    Laura commented

    muuitíssimo bem escrito!!me deu vontade de fazer um cinema em casa com o meu namorado!heheheh parabéns Fabian,adorei!!

    01/12/2009 at 10:25 PM
    admin commented

    Olha, essa sua GAFE acabou me rendendo umas idéias malucas acerca da nona arte que ainda irei explorar mais e quem sabe literaturar por ela.
    Não foi de todo mal!!

    27/11/2009 at 1:49 PM
    Fabian Balbinot commented

    Nona arte, em geral, é como é conhecida a literatura de quadrinhos, mas nesse caso, nona arte equivale à arte da GAFE de parte do autor do texto (eu mesmo!), já consertada por nossa prestativa hostess, Mary. Thank you, babe! =)

    25/11/2009 at 10:02 PM
    Diego commented

    Lindo conto.Essa composição de histórias entre a vida real e o que acontece nas telas,me faz ver que nos permitimos muito pouco a viver romances dramáticos.Não queremos correr riscos e acabmos nos contentando com relacionamentos banais.

    Uma pergunta:O que é Nona Arte?

    Diego

    25/11/2009 at 3:12 PM